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segunda-feira, 12 de abril de 2010

Sofrer Para Nada Serve...

Porque esquecemos os mortos? Porque já não têm préstimo. Esquecemos, repudiamos uma pessoa triste ou doente, em virtude da sua inutilidade psíquica ou física. Ninguém se abandonará a ti, se não vir nisso algum proveito. E tu? Creio ter-me abandonado uma vez, desinteressadamente. Não devo, portanto, chorar por ter perdido o objecto daquele abandono. Já não seria desinteressado, nesse caso. No entanto, vendo quanto se sofre, o sacrifício é antinatural. Ou superior às minhas forças. E chorar é ceder ao mundo, é reconhecer que se procurava algum proveito. Há alguém que renuncie, podendo ter? A caridade não é outra coisa que o ideal da impotência. Basta de virtuosa indignação! Se tivesse tido dentes e habilidade, teria apanhado a presa.
Mas isto não impede que a cruz do desiludido, do falido, do sacrificado - eu - seja atroz de suportar. Afinal de contas, o mais famoso dos crucificados era Deus: nem desiludido, nem falido, nem vencido. No entanto, apesar de todo o seu poder, gritou "Eli!", mas depois dominou-se e triunfou, e já o sabia de antemão. A esse preço, quem não queria ser crucificado? Há tantos que morreram desesperados. E esses sofreram mais do que Cristo. Mas a grande, a tremenda verdade é esta: sofrer, para nada serve.

Cesare Pavese, in "O Ofício de Viver"

segunda-feira, 15 de março de 2010

Crueldade e Sofrimento

A crueldade é constitutiva do universo, é o preço a pagar pela grande solidariedade da biosfera, é ineliminável da vida humana. Nascemos na crueldade do mundo e da vida, a que acrescentámos a crueldade do ser humano e a crueldade da sociedade humana. Os recém-nascidos nascem com gritos de dor. Os animais dotados de sistemas nervosos sofrem, talvez os vegetais também, mas foram os humanos que adquiriram as maiores aptidões para o sofrimento ao adquirirem as maiores aptidões para a fruição. A crueldade do mundo é sentida mais vivamente e mais violentamente pelas criaturas de carne, alma e espírito, que podem sofrer ao mesmo tempo com o sofrimento carnal, com o sofrimento da alma e com o sofrimento do espírito, e que, pelo espírito, podem conceber a crueldade do mundo e horrorizar-se com ela.
A crueldade entre homens, indivíduos, grupos, etnias, religiões, raças é aterradora. O ser humano contém em si um ruído de monstros que liberta em todas as ocasiões favoráveis. O ódio desencadeia-se por um pequeno nada, por um esquecimento, pela sorte de outrem, por um favor que se julga perdido. O ódio abstracto por uma ideia ou uma religião transforma-se em ódio concreto por um indivíduo ou um grupo; o ódio demente desencadeia-se por um erro de percepção ou de interpretação. O egoísmo, o desprezo, a indiferença, a desatenção agravam por todo o lado e sem tréguas a crueldade do mundo humano. E no subsolo das sociedades civilizadas torturam-se animais para o matadouro ou a experimentação. Por saturação, o excesso de crueldade alimenta a indiferença e a desatenção, e de resto ninguém poderia suportar a vida se não conservasse em si um calo de indiferença.

Edgar Morin, in 'Os Meus Demónios'

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O Nosso Código Ético e Moral Desculpabiliza-nos Perante a Recusa de Aliviarmos o Sofrimento Alheio...

Eu não desviava os olhos de minha mãe, sabia que, quando estivessem à mesa, não me seria permitido ficar até ao fim da refeição, e que, para não contrariar meu pai, a mamã não me deixaria beijá-la várias vezes diante dos outros, como se fosse no meu quarto. (...) antes de tocarem a sineta para o jantar, meu avô teve a ferocidade inconsciente de dizer: «O pequeno parece cansado; deveria ir deitar-se. E depois, jantamos tarde hoje.» E meu pai,(...) disse: «Sim. Anda, vai deitar-te.» Eu quis beijar a mamã; nesse instante ouviu-se a sineta do jantar. «Não, não, deixa a tua mãe em paz, vocês já se despediram bastante, essas demonstrações são ridículas. Anda, sobe!» E eu tive de partir sem viático; tive de subir cada degrau «contra o coração», subindo contra o meu coração, que desejava voltar para junto de minha mãe porque ela não lhe havia dado, com um beijo, licença de me acompanhar. (...) Já no meu quarto, tive de (...) cerrar os postigos, cavar o meu próprio túmulo enquanto virava as cobertas, vestir o sudário da minha camisa de dormir. Mas antes de sepultar-me no leito de ferro (...), veio-me um impulso de revolta e resolvi tentar um ardil de condenado. Escrevi a minha mãe, suplicando-lhe que subisse, para um assunto grave que eu não podia dizer-lhe na minha carta. Todo o meu receio era que Francisca, a cozinheira (...), se recusasse a levar o meu bilhete. Suspeitava que, para ela, dar um recado a minha mãe quando havia gente de fora pareceria uma coisa tão impossível como, para o porteiro de um teatro, entregar uma carta a um actor que estivesse em cena. Possuía ela, para julgar os recados que devia ou não devia fazer, um código imperioso, abundante, subtil e intransigente, com distinções imperceptíveis ou ociosas (o que lhe dava a aparência dessas leis antigas que, a par de prescrições ferozes como a chacina de crianças de peito, proíbem, com exagerada delicadeza, que se cozinhe o cabrito no leite de sua própria mãe (...) ).
Esse código, a julgar pela repentina obstinação com que ela se negava a desempenhar certas incumbências que lhe dávamos, parecia ter previsto complexidades sociais e refinamentos mundanos de tal natureza que nada, no ambiente de Francisca e na sua vida de criada de aldeia, lhe poderia ter sugerido; e éramos obrigados a acreditar que havia nela um passado francês muito antigo, nobre e mal compreendido, como nessas cidades manufactureiras onde velhos palácios testemunham que houve outrora uma vida de corte, o onde os operários de uma fábrica de produtos químicos trabalham no meio de delicadas esculturas que representam o milagre de S. Teófilo ou os quatro filhos de Aymon. Naquele meu caso particular, o artigo de código conforme o qual era muito pouco provável que Francisca, salvo em caso de incêndio, fosse perturbar a mamã na presença do Sr. Swann, por causa de um personagem tão insignificante quanto eu, exprimia simplesmente a reverência que ela dedicava não somente aos pais(...), mas também ao estranho a quem se dá hospitalidade, reverência que talvez me impressionasse num livro, mas que sempre me irritava em sua boca, em face do tom grave e enternecido que ela tomava para aludir a isso, e muito mais naquela noite em que o carácter sagrado que atribuía à ceia concorreria para que se negasse a perturbar a cerimónia. Mas, para conseguir uma probabilidade em meu favor, não hesitei em mentir, dizendo que não era a mim que havia ocorrido escrever à mamã mas que fora a mamã que me recomendara, ao separarmo-nos, que não me esquecesse de lhe mandar uma resposta relativa a certo objecto que me pedira para procurar; e que ela decerto ficaria muito incomodada se não lhe entregassem o meu bilhete. Penso que Francisca não me acreditou, (...) contemplou durante cinco minutos o sobrescrito, como se o exame do papel e o aspecto da letra fossem informá-la da natureza do conteúdo (...) Depois saiu com um ar resignado que parecia significar: «Que desgraça para os pais terem um filho assim!»
Marcel Proust, in "No Caminho de Swann"

sexta-feira, 24 de julho de 2009

A Sabedoria do Sofrimento...

O sofrimento não tem menos sabedoria do que o prazer: tal como este, faz parte em elevado grau das forças que conservam a espécie. Porque se fosse de outra maneira há muito que esta teria desaparecido; o facto de ela fazer mal não é um argumento contra ela, é muito simplesmente a sua essência. Ouço nela a ordem do capitão: «Amainem as velas». O intrépido navegador homem deve treinar-se a dispor as suas de mil maneiras; de outro modo, não tardaria a desaparecer, o oceano havia de o engolir depressa. É preciso que saibamos viver também reduzindo a nossa energia; logo que o sofrimento dá o seu sinal, é chegado o momento; prepara-se um grande perigo, uma tempestade, e faremos bem em oferecer a menor «superfície» possível. Há homens, contudo, que, quando se aproxima o grande sofrimento, ouvem a ordem contrária e nunca têm ar mais altivo, mais belicoso, mais feliz do que quando a borrasca chega, que digo eu! E a própria tempestade que lhes dá os seus mais altos momentos! São os homens heróicos, os grandes «pescadores da dor», esses raros, esses excepcionais de que é necessário fazer a mesma apologia que se faz para a própria dor! Não lha podemos recusar! São conservadores da espécie, estimulantes de primeira qualidade, quando mais não seja porque resistem ao bem-estar e não escondem o seu desprezo por essa espécie de felicidade.
Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"